Archive for the Crônicas Category

O mistério do danone

Publicado em Alimentos, Crônicas, Humor with tags às Março 20, 2008 por jecspawn

Por que será que sempre tem um iogurte de coco na bandeja de morango?

Quando eu era pequena, havia duas marcas de iogurte: Danone e Chambourcy. A Danone era da Danone mesmo e a Chambourcy era da Nestlé. Na época, Danone era sinônimo de marca, a ponto de eu estranhar até hoje quando alguém pede um “iogurte”. Mas o ponto não é esse.

O ponto é que minha mãe, sempre que ia ao supermercado, comprava aqueles danones de bandeja, potes médios com seis unidades. E não dava outra: sempre havia cinco danones de morango e um maldito danone de coco. O de coco, evidentemente, ninguém tomava porque era horrível. Resultado: sempre havia um ou dois potes de danone de coco mofando na geladeira. Depois de dias, semanas, minha mãe desistia e acabava jogando o danone fora. Mas isso era só depois de ele estar MUITO além do prazo de validade.

Sempre me perguntei porque diabos a Danone enfiava aquele troço de coco no meio dos outros de morango. Devia ser algum excedente de produção. Ou talvez o que sobrava depois de lavarem a máquina do danone de morango no final do dia, com detergente de coco. Porque, pensem comigo: se há realmente pessoas no mundo que gostam de danone de coco, a ponto de dar algum dinheiro por ele, porque o fabricante não faz bandejas só de coco? Hein, hein?

Um belo dia, minha mãe começou a implicar: se a gente queria tomar os danones de morango, tinha que tomar o de coco também. Mas ninguém tomava. Quando ela ameaçou parar de comprá-los, minha avó, com tendências para mártir, disse que ficaria com os de coco. Depois de algumas vezes, começou até a dizer que gostava, mas ninguém acreditou. Impossível gostar daquilo.

Outro dia, pagando meus pecados no supermercado, estava de passagem pela área de laticínios para comprar os danones das crianças e, adivinha só? Ali estava a bandeja com o tal danone de coco, impávido, firme feito uma rocha, no meio dos de morango. A marca era outra, mas a idéia era rigorosamente a mesma, sem tirar nem pôr. Peguei a bandeja, sem acreditar. Não era possível que trinta anos depois, em tempos de Procon, de pesquisas de hábitos e atitudes e de direitos do consumidor, aquele troço continuasse existindo.

Cheguei a uma única conclusão possível: deve haver alguém no mundo que goste daquilo. Alguém aí gosta?

Ana Téjo tem 37 anos, é publicitária, redatora, tradutora, nadadora, planejadora, cozinheira, mãe e escritora, quase nunca nesta ordem. Administra, sempre que possível, dois filhos elétricos, uma babá rabugenta, um trabalho eletrizante, uma mãe obstinada, um namorado apaixonante e uma vontade compulsiva de escrever.   Leia mais deste autor.

Todo mundo nu!

Publicado em Crônicas, Humor with tags às Fevereiro 22, 2008 por jecspawn

Nas festinhas de outrora, mas muito outrora mesmo, tinha sempre um engraçadinho que dava o grito:

- Todo mundo nu!

Nunca ninguém ficou nu. O engraçadinho ficou. Uma vez só. Foi expulso e nunca mais voltamos a convidá-lo para o que chamávamos então de thé dansant, embora não houvesse chá e fosse de noite. Agora, que se dançava, ah isso se dançava, sim senhor. Música americana, que jovens e ignorantes chamávamos de fox-blue, muito bolero e samba-canção.

Sim, houve festinha em que, na privacidade de um quarto, andou, por assim dizer, gente nua. Não vou falar nisso agora. Não é nem a hora nem o lugar.

As pessoas nuas estavam nas revistas naturistas importadas que alguns dos rapazes compravam para apurar seus instintos estéticos. Pelo menos é o que diziam. Nudista mesmo, nunca vimos um. Ao menos em carne e osso. Exibicionista é outro papo. Mesmo com o passar dos anos e a chegada da esperada (e logo decepcionante) maturidade, nunca vimos um nudista em pelada pessoa.

Deve ter sido melhor assim. Afinal de conta não éramos comunistas alemães.

Comunistas alemães! E nus!

O comunismo, tido e havido como prática exótica, provou sê-lo nas décadas em que foi adotado pela ex-República Democrática Alemã, se é que estão lembrados dela. Nunca ninguém se deu ao trabalho de explicar o fenômeno de sua popularidade entre os seguidores dos ensinamentos de Marx e Lênin.

Infelizmente, nem Gramsci ou Hannah Arendt se encontram entre nós para jogar uma luz nesse história. História. É sabido fato histórico que, nos tempos da Alemanha comunista, os feriados naturistas eram popularíssimos. Iam todos á praia sem calção, sem nada.

Jogavam vôlei, medicine ball, peteca, corriam, pulavam, entravam e saíam da água, sempre com as vergonhas à mostra, sempre com aquele sorriso meio safado que os nudistas cultivam quando diante de máquina fotográfica ou pessoa vestida, mesmo em traje esporte. O nudismo como parte de uma ideologia – taí um bom tema para uma dissertação inútil.

Freikörperkultur, ou, em bom português, Cultura do Corpo Livre, era o nome do movimento que se espalhou pela República Democrática Alemã comunista no que muitos ainda se referem, sem ironia, como “os bons tempos”. FKK, siglando entre os entendidos. Você chegava numa praia e se encontrasse lá, num pedaço de pau, as três letrinhas, era bom ou ir tirando toda roupinha ou ir tirando o corpinho fora, pra bem longe de lá. Nudistas em ação, era o recado.

Hoje em dia, o FKK é um saudável remanescente dos tempos da ditadura do proletariado. Tanto no leste quanto no oeste da Alemanha, há praias ostentando as iniciais claramente que, também, entre o povão chamam de “praias têxteis”, para evitar confusão. Também não entendo por que “têxteis”. Uma referência à textura da pela, quiçá? Se os alemães já são estranhos, que dirá os nudistas alemães.

Charter jóia

Um agente de viagens alemão, por dentro das coisas, bolou vôos charter para passageiros que preferem voar apenas com a roupa com que vieram ao mundo. Nuzinhos em pelo. O nome da companhia inovadora é OssiUrlaub.

Ela se especializou em fretar vôos para ex-comunistas em estado de férias. A primeira vez que se dá isso no país, pré- ou pós-unificado. Segundo Enrico Haas, diretor da organização inovadora, “as pessoas poderão gozar do prazer de voar tal como Deus as criou”.

Os vôos são curtos. Farão apenas o percurso entre a cidade de Erfurt à ilha de Usedom, no mar Báltico. Um nada. Ida e volta no mesmo dia. O preço é meio caro: uns 750 dólares por cabeça (sem chapéu). Sim, haverá o habitual protocolo dos dias de hoje: no aeroporto, cada passageiro será revistado para se certificarem que não portam armas ou explosivos.

Nudista não faz essas bobagens. Uma vez a bordo, os passageiros poderão tirar toda sua roupa e começar a gozar, nas alturas, dos prazeres do naturismo dentro do mais pesado que o ar. Os pilotos e toda a equipe de bordo, enfim, manterão suas roupinhas. “Por motivos de segurança”, alega Haas.

Como assim? E se eles estiverem armados? Eu exigiria que, ao menos, comissárias e comissários de bordo se despissem ficando, como queria aquele sem-vergonha das festinhas que eu mencionei no início desta palestra.

Conclusão

Todo mundo nu! Todo mundo nu!

Por essas e outras ‘vou estar desligando’ o telefone fixo

Publicado em Crônicas, Humor with tags , às Fevereiro 19, 2008 por jecspawn

Luiz Marcelo

Dia desses, ou melhor, madrugada dessas, fui acordado por um telefonema inesperado. Aliás, todos os telefonemas as 2 e meia da manha, na minha concepçao, sao inesperados. Era o famoso Golpe do Sequestro. Aquele que toca um terror na sua noite, com uma mocinha indefesa, aos prantos, gritando que vao matá-la se você nao cumprir as exigências dos sequestradores. Chamo isso de Telemarketing do Crime. É, porque funciona exatamente assim, como o telemarketing das grandes empresas.

A empresa que ‘vende’ sequestros, a fim de angariar cartoes telefônicos pré-pagos, pega um número aleatório, em uma lista de telefones qualquer e liga. Aí oferece seu ‘produto’ a quem quer que atenda. Você, no outro lado da linha, tem a opçao de comprar, e salvar a vida de um parente indefeso, ou nao. A escolha é sua. Somente sua.

Eu, pra variar, optei por nao comprar a liberdade da pobre moça indefesa do outro lado da linha. E disse - “Nao, eu nao vou comprar cartoes telefônicos a essa hora da noite para salvar a vida de ninguém!”. Num raro momento de lucidez, tive a convicçao de que tinha feito o certo. Até porque, a moça indefesa era minha filha. E eu, que nem casado sou, nao tenho herdeiros. O Telemarketing do Crime nao funcionou comigo. E, sem concretizar sua ‘venda’, a atendente desligou, após a confirmaçao de que, até onde eu sabia, ainda nao tinha filha alguma.

Pois bem. Dias depois, o telefone toca novamente. Dessa vez num sábado a tarde. O que convenhamos, também é chato demais. Mas para a minha tranquilidade, era apenas a solícita atendende de uma grande empresa de telefonia fixa. Essa, queria me vender uma promoçao na qual eu ganharia uma conexao incrivelmente rápida para a minha internet. Ótimo! Praticamente irrecusável. Se nao fosse pelo simples fato de que eu nao tenho computador em casa. O que parece absurdo, eu sei. Mas é a mais pura verdade. 

Bem, é claro que recusei, assim como fiz com a moça do Telemarketing do Crime. Mas, mesmo diante da minha negativa, a atendente da empresa de telefonia continuou o seu trabalho. E tentou me convencer mais uma vez que, pelo preço que eu ‘ia estar pagando’, nao poderia recusar. Recusei novamente, claro. E com toda a eduçao que me é peculiar. Alegando que nao via sentido nisso, pois como ja havia dito, nao tinha computador em casa. Logo, nao teria como usar o benefício da internet rápida.

Acreditem - incansável, a mocinha tentou ainda pela 3a vez. Quando eu, grosso, bati o telefone na sua cara. Sem o menor remorso. Mas aí, imediatamente, lembrei-me da atendendente do Telemarketing do Crime e, confesso, tive saudades da moça aos prantos. O atendimento dela foi muito melhor. Muito menos invasivo. Tomou muito menos tempo da minha vida. Afinal, ela foi sensata. E desligou o telefone assim que percebeu que eu nao era o target para o produto que vendia. 

Bem, em ambos os casos me senti coagido a comprar o que nao queria. O que deve acontecer com todo mundo que tem uma linha de telefone em casa. E é por essas e mais outras que eu ‘vou estar desligando’ meu telefone fixo. E, quando alguém me ligar, vai ter que ‘estar me deixando’ um recado, para que eu ‘possa estar retornando’ mais tarde. 

MAIS 5 MINUTOS

Publicado em Crônicas, Interessante, mensagem with tags às Fevereiro 15, 2008 por jecspawn

No parque, uma mulher sentou-se ao lado de um homem.
Ela disse:
- Aquele ali é meu filho, o de suéter vermelho deslizando no escorregador.
- Um bonito garoto - respondeu o homem. E completou: - Aquela de vestido branco, pedalando a bicicleta, é minha filha.

Então, olhando o relógio, o homem chamou a sua filha.
- Melissa, o que você acha de irmos?
- Mais cinco minutos, pai. Por favor. Só mais cinco minutos!

O homem concordou e Melissa continuou pedalando sua bicicleta, para alegria de seu coração.
Os minutos se passaram, o pai levantou-se e novamente chamou sua filha:
- Hora de irmos, agora?

Mas, outra vez Melissa pediu:
- Mais cinco minutos, pai. Só mais cinco minutos!

O homem sorriu e disse:
- Está certo!
- O senhor é certamente um pai muito paciente - comentou a mulher ao seu lado.

O homem sorriu e disse:
- O irmão mais velho de Melissa foi morto no ano passado por um motorista bêbado, quando montava sua bicicleta perto daqui.
Eu nunca passei muito tempo com meu filho e agora eu daria qualquer coisa por apenas mais cinco minutos com ele.
Eu me prometi não cometer o mesmo erro com Melissa.
Ela acha que tem mais cinco minutos para andar de bicicleta.
Na verdade, eu é que tenho mais cinco minutos para vê-lá brincar…

Em tudo na vida estabelecemos prioridades.
Quais são as suas?
Lembre-se: nem tudo o que é importante é prioritário, e nem tudo o que é necessário é indispensável!
Dê, hoje, a alguém que você ama mais cinco minutos de seu tempo.

Eu parei 5 minutos para encaminhar esta mensagem a você

E você, pode perder 5 minutos para passá-la adiante?

Eu, Cidadão

Publicado em Crônicas, Humor às Janeiro 31, 2008 por jecspawn

COMO BOM CIDADÃO, decidi racionar meus gastos com energia elétrica. Chamei a empregada:
–    Você está proibida de tomar banho aqui em casa.
–    Mas o senhor quer que eu vá embora suja?
–    Quando for para casa, você vai ter de pegar um ônibus lotado. O primeiro banho terá sido inútil, pois terá de tomar outro ao chegar. Economize!
Ela me olhou raivosamente. Com certeza não economizou pensamentos!
Lembrei-me dos conselhos de um avô, segundo os quais banhos frios ajudam a manter a pele elástica. Abri o chuveiro. Ai, que frio! Saí pelo banheiro saltitando como uma rã.
Conversei com meu personal trainer. A esteira gasta, muito energia.
–    Você substitui eliminando o elevador.
Moro no 122 andar. Quando cheguei ao terceiro, minhas pernas latejavam. No quarto, eu me agarrava nas paredes como uma lagartixa. No sexto, bati na porta da vizinha, pedindo socorro. As panturrilhas duras recusavam-se a dar sequer um passo! De qualquer maneira, funcionou. Com as pernas em chamas, nem penso em voltar à esteira!
O microondas está criando teias de aranha. Ultimamente só comia refeições dietéticas adquiridas em supermercados. Entretanto, já que é para usar o fogão a gás… vamos à luta! Chafurdei em salsichas com mostarda. Fiz um bolo de cenoura com calda de chocolate. Ganhei dois quilos, mas sem peso na consciência. Tudo pelo racionamento!
Luz, só para ler. Outro dia recebi visitas no escuro.
–    Assim não consigo enxergar o seu rosto — reclamou uma amiga.
–    Vamos nos contentar com uma conversa agradável, sem olhar um para o outro — retruquei.
Não ofereci café, pois minha cafeteira é elétrica. Sugeri:
–    Aceita um refrigerante morno?
A visita demorou quinze minutos.
Aposentei um antigo e heróico freezer. Era meu orgulho. Tem bem uns dezessete anos. Aparelhos velhos gastam mais.
— A gente podia criar abelhas dentro dele — propôs o caseiro da chácara.    .     .
Para tudo há um novo uso: Não seria o impulso para me transformar em um grande produtor de mel? Botamos o freezer encostado na cerca, certos de que abelhas pertencentes a algum movimento das sem colméia se instalassem. Dois dias depois, ouvimos um barulhinho.
–    Não disse que elas vinham? — comemorou o caseiro.
Fomos espiar cautelosamente. Dependurado nas grades havia um bando de… morcegos! Fugimos.
Na chácara há uma piscina. Proibi a limpeza.
–    Como o senhor vai nadar?
— Não vou, neste frio.
A água começa a esverdear. Tento agora descobrir como evitar a dengue.    Só temos um problema: o cortador de grama.
–    Se eu não cortar, isso aqui vira mato.
Resolvi comprar uma ovelha. Nada mais útil. Poderia pastar e ainda fornecer nutritivos litros de leite. E lã, caso eu encontrasse alguém capaz de fiar e tecer. Foi difícil. Tive de ir até perto de São Roque, onde consegui uma linda e econômica ovelhinha. Mal cheguei, o cachorro rosnou.
– E cão de caça, ele vai querer comer a ovelha.
Não deu outra. O caseiro passou dias de pavor tentando impedir os instintos selvagens do cão. A ovelhinha tremia, e nada de comer a grama! Para sobreviver, teve de dormir presa na cama do caseiro. Está sendo devolvida. Foi um prejuízo, que espero recuperar na conta de luz!
Parei de ouvir música. Para me distrair, canto em voz alta. Assim, além de evitar o meu consumo, evito o dos vizinhos. Ouvi falar em um abaixo-assinado, mas nada ainda chegou até mim.
Já ouvi um zunzunzum falando em camisa-de-força. Nem sempre uma atitude cívica é bem compreendida. O bom cidadão é, antes de tudo, um mártir!

Walcyr Carrasco
Do Livro: Pequenos Delitos e outras Crônicas